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Quando a esperança é subversiva
When Hope is Subversive

 

Henry A. Giroux

 

É possível imaginar a esperança por justiça e humanidade depois da tortura de iraquianos (incluindo alguns ainda adolescentes) detidos por soldados americanos na prisão de Abu Graib? O que significa a esperança quando os Estados Unidos estão virtualmente sem desafiantes e, enquanto isso, encarceram sem precedentes um grande número de jovens de cor? O que a esperança ensina-nos em tempos nos quais os governantes mentem e a decepção está exposta diariamente na mídia e ainda parece ter pouco efeito sobre o apoio popular do Presidente Bush? Que recursos e perspectivas a esperança pode oferecer em uma sociedade na qual a ganância é considerada venerável e o lucro é a medida mais importante das conquistas pessoais e do avanço social? Qual é a relevância da esperança num tempo em que muitas das tentativas de interromper as operações de um incipiente fascismo parecem alimentar um crescente cinismo em vez de promover a difusão individual e coletiva de atos de resistência?

É difícil não acreditar que a política na vida americana tem se tornado corrupta, que a mudança social progressista é uma memória distante, ou que a esperança é o último refúgio de um ingênuo romantismo. O engajamento cívico parece irrelevante à luz do crescente poder das corporações multinacionais em privatizar o tempo e o espaço públicos. Nós temos menos tempo – e menor espaço cívico – para convivermos como agentes políticos. Os valores de mercado substituem os valores sociais. Há uma desconexão entre o poder e as questões de igualdade, justiça social e responsabilidade cívica. Pessoas com educação e meios parecem mais e mais propensas a se retirar para os seguros e privatizados enclaves da família, religião e consumo. Aqueles sem a luxúria das escolhas pagam um terrível preço, que Zygmunt Bauman, em seu livro Globalização, tem chamado “a moeda forte do sofrimento humano”.

Dadas tais condições sociais, alguns teóricos têm sugerido que a democracia política – como um local de contestação, de troca de experiências críticas e engajamento – chegou ao fim. Nós não podemos nos render tão facilmente. A democracia tem de ser defendida, mesmo em face da mais intimidadora crise de oportunidades educacionais e ações políticas. Tal cinismo produz a apatia – e não o contrário. A atual situação de depressão e bancarrota da linguagem políticas leva-nos ao desafio de formular uma nova linguagem e visão que podem reposicionar as questões da ação, da ética e o significado de uma democracia substantiva.

Elaborar uma nova linguagem política requererá o que eu chamo “esperança educada”. Esperança é a precondição para a luta individual e social. Além disso, ela é uma propensão individual, nós precisamos tomar a esperança como parte de uma política ampla, que esclarece as condições sociais, econômicas, espirituais e culturais no presente, e torna possíveis certos tipos de ações e políticas democráticas. Entendida assim, a esperança torna-se não meramente uma tentativa ansiosa de ver para além do horizonte atual, mas o que Andrew Benjamin, em A esperança presente, chama “uma condição estrutural do presente”.

O filósofo Ernst Bloch forneceu uma abordagem teórica essencial para a compreensão da importância da esperança. Ele afirma que a esperança precisa ser concreta, uma centelha que não somente escapa para além do vácuo ao redor das relações capitalistas, antecipando um mundo melhor no futuro, mas também uma centelha cujo brilho nos alerta para o mundo em que vivemos agora, propondo tarefas baseadas nos desafios do tempo presente. Em A função utópica da arte e da literatura, Bloch afirma que a esperança não pode ser removida do mundo. A esperança não é “algo como uma fantasia sem sentido ou absoluta; embora ela não seja ainda uma possibilidade; ela pode estar lá se nós fizermos algo para isso”.

Nessa visão, a esperança torna-se um discurso de crítica e transformação social. A esperança nos propicia uma súbita transição entre a educação crítica, a qual nos diz o que precisa ser mudado; a ação política, que nos dá os meios para promover a mudança; e a luta concreta, por meio da qual a mudança acontece. A esperança, em resumo, dá-nos subsídios para o reconhecimento de que todo presente é incompleto. Para teóricos como Bloch e seus pares contemporâneos, como Mickael Lerner, Cornel West e Robin D. G. Kelley, a esperança é mais antecipatória que messiânica, mais mobilizadora que terapêutica. Entendê-la dessa maneira, como desejo de uma sociedade mais humana, não nos leva a um alheamento do mundo, mas se torna um meio de engajamento com os comportamentos presentes, formações institucionais e práticas cotidianas. A esperança, nesse contexto, não ignora as piores dimensões do sofrimento humano, exploração e relações sociais, pelo contrário, como Thomas Dunn escreve, ela esclarece sobre a necessidade de manter “a capacidade de ver o pior e oferecer mais que isso para nossa consideração” (em Vocações da teoria política, editado por Jason A. Frank e John Tambornino).

Assim, a esperança é mais que uma política, ela é também uma prática pedagógica e efetiva que oferece uma base para a capacitação dos seres humanos a aprender sobre seu potencial como agentes morais e cívicos. A esperança é o resultado daquelas práticas e lutas educacionais que ecoam na memória e experiências vividas e, ao mesmo tempo, estabelece conexões entre a responsabilidade individual e um sentido progressista de mudança social. Como uma forma de utopia ardente, a esperança educada abre horizontes de comparação pela evocação não somente de diferentes histórias, mas de diferentes futuros. A esperança educada é uma força subversiva quando pluraliza a política por meio da abertura de um espaço para dissensão, tornando a autoridade responsável, bem como tornando-se presença ativa na promoção da transformação social.

Há nos Estados Unidos uma longa história da esperança como uma força subversiva. Exemplos notórios são as lutas pelos Direitos Civis, movimentos feministas nos anos 1950, contra o racismo nos anos 1960, contra a pobreza, sexismo e a Guerra no Vietnã. Exemplos mais recentes podem ser encontrados entre as manifestações dos jovens contra as corporações multinacionais e a Organização Mundial do Comércio em cidades tão distintas como Melbourne, Seattle e Gênova. A esperança estava evidente nas ações das organizações trabalhistas, intelectuais, estudantes e trabalhadores protestando juntos nas ruas de Nova Iorque contra as políticas de Bush e seus correligionários na Convenção Nacional do Partido Republicano.

Tal afirmação não significa que uma política e pedagogia da esperança é um plano para o futuro: ela não é. O que a esperança oferece é a crença, simplesmente, que futuros diferentes são possíveis. Desse modo, a esperança pode tornar-se uma força subversiva, pluralizando a política pela abertura de um espaço para dissensão, contingência, indeterminação. “Para mim”, escreve Judith Butler, “há mais esperança no mundo quando nós questionamos o que é dado como certo, especialmente sobre o que é ser humano” (citado por Gary Olson e Lynn Worshamp em JAC 20:4). Zygmunt Bauman, em um diálogo com Keith Tester (em Conversas com Zygmunt Bauman) vai além, afirmando que a ressurreição de qualquer noção viável de ação política e social é dependente de uma cultura do questionamento, proposta que, segundo ele, serve para “manter aberto o nunca exaurido e repleto potencial humano, lutando contra todas as tentativas de excluir e (re)esvaziar a promoção do esclarecimento das possibilidades humanas, estimulando a sociedade humana a avançar no questionamento de si e evitando que esse questionamento seja sempre adiado ou declarado infértil”.

O alvo da esperança educada não é liberar o indivíduo do social – um princípio central do neoliberalismo –, mas tomar seriamente a noção de que o indivíduo somente pode ser livre por meio do social. A esperança educada, enquanto uma prática subversiva e desafiadora, pode providenciar uma ligação – ainda que transitória, provisória e contextual – entre, de um lado, visão e crítica, e, de outro, engajamento e transformação. Isto é, para a esperança ser consequente tem de ser fundada em um projeto que possua alguma raiz no presente. A esperança torna-se significativa à medida que identifica ações e processos, oferece alternativas para uma época de profundo pessimismo, reclama uma ética da compaixão e justiça, e luta por aquelas instituições nas quais a igualdade, liberdade e justiça florescem como parte de uma luta para o avanço de uma democracia global.

“When hope is subversive”, texto inicialmente publicado em inglês na revista Tikkun, v. 19, n. 6. Traduzido para o português por Edison Bariani, Doutor em Sociologia e professor da Faculdade de Itápolis (FACITA), para publicação na revista Múltiplas Faces da Região, n. 7, 2009. Manifestamos nosso agradecimento a H. Giroux pela licença de tradução e publicação deste artigo, demonstrando sua ampla compreensão do significado da cultura, da esfera pública e do papel do intelectual no mundo atual, o que indica seu compromisso com uma práxis da esperança – e não com a retórica do discurso academicista.

translation by Edison Bariani